Eu sou por Natureza feito para meu próprio bem; não para meu próprio mal.

Dos Ensinamentos Áureos de Epicteto.


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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

MURMÚRIOS DA TARDE — Castro Alves

FORMAS POÉTICAS 06 — CANÇÃO REDONDA
A canção redonda tem sua origem na cansó redonda dos trovadores medievais. Pertence, portanto, ao gênero lírico. Nela, o verso inicial do poema é o mesmo que o arremata. Um exemplo é a famosa Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira.
Uma variante da canção redonda repete, no final do poema, toda a estrofe inicial ou uma parte dela. Um exemplo é Beijo Eterno de Olavo Bilac.
Outra variante consiste na repetição do verso inicial da estrofe no final da mesma. Foi o que Castro Alves fez nas quintilhas de Murmúrios da Tarde:

MURMÚRIOS DA TARDE

Ontem à tarde, quando o sol morria,
A natureza era um poema santo.
De cada moita a escuridão saía,
De cada gruta rebentava um canto,
Ontem à tarde, quando o sol morria.

Do céu azul na profundeza escura
Brilhava a estrela, como um fruto louro,
E qual a foice, que no chão fulgura,
Mostrava a lua o semicírc'lo d'ouro,
Do céu azul na profundeza escura.

Larga harmonia embalsamava os ares!
Cantava o ninho — suspirava o lago...
E a verde pluma dos sutis palmares
Tinha das ondas o murmúrio vago...
Larga harmonia embalsamava os ares.

Era dos seres a harmonia imensa
Vago concerto de saudade infinda!
"Sol — não me deixes" diz a vaga extensa.
"Aura — não fujas" diz a flor mais linda;
Era dos seres a harmonia imensa!

"Leva-me! leva-me em teu seio amigo"
Dizia às nuvens o choroso orvalho,
"Rola que foges" diz o ninho antigo,
"Leva-me ainda para um novo galho...
"Leva-me! leva-me em teu seio amigo."

"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!"
"Inda um calor, antes que chegue o frio..."
E mais o musgo se conchega à penha
E mais à penha se conchega o rio...
"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!"

E tu no entanto no jardim vagavas,
Rosa de amor, celestial Maria...
Ai! como esquiva sobre o chão pisavas,
Ai! como alegre a tua boca ria...
E tu no entanto no jardim vagavas.

Eras a estrela transformada em virgem!
Eras um anjo, que se fez menina!
Tinhas das aves a celeste origem.
Tinhas da lua a palidez divina,
Eras a estrela transformada em virgem!

Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto.
Que bela rosa! que fragrância meiga!
Dir-se-ia um riso no jardim aberto,
Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga...
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto!...

E eu, que escutava o conversar das flores,
Ouvi, que a rosa murmurava ardente:
"Colhe-me, ó virgem, — não terei mais dores,
"Guarda-me, ó bela, no teu seio quente..."
E eu escutava o conversar das flores.

"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!"
Também então eu murmurei cismando...
"Minh'alma é rosa, que a geada esfria...
"Dá-lhe em teus seios um asilo brando...
"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!..."

domingo, 23 de novembro de 2014

MORENINHA — Casimiro de Abreu

FORMAS POÉTICAS 05 — CANÇÃO
As canções se dividem em três tipos: trovadorescas, clássicas, e românticas ou modernas. Pertencem ao gênero lírico.
As primeiras, dos trovadores medievais, eram cantigas de amor (pastorelas, desacordos, tenções) e as cantigas de amigo (alvas, serenas, bailias, barcarolas e romarias).
As canções clássicas surgiram no Renascimento e perduraram até o século 18. Tinham três partes: introdução, texto e ata, em decassílabos alternados com hexassílabos.
As românticas ou modernas subdividem-se em religiosas, patrióticas, guerreiras, amorosas ou eróticas, nostálgicas, sertanejas (cultas e incultas).

Um exemplo de canção amorosa é a Moreninha, de Casimiro de Abreu.

Moreninha, Moreninha,
Tu és do campo a rainha,
Tu és senhora de mim;
Tu matas todos d'amores,
Faceira, vendendo as flores
Que colhes no teu jardim.

Quando tu passas n'aldeia
Diz o povo à boca cheia:
— "Mulher mais linda não há!
"Ai vejam como é bonita
"Co'as tranças presas na fita,
"Co'as flores no samburá! —

Tu és meiga, és inocente
Como a rola que contente
Voa e folga no rosal;
Envolta nas simples galas,
Na voz, no riso, nas falas,
Morena — não tens rival!

Tu, ontem, vinhas do monte
E paraste ao pé da fonte
À fresca sombra do til;
Regando as flores, sozinha,
Nem tu sabes, Moreninha,
O quanto achei-te gentil!

Depois segui-te calado
Como o pássaro esfaimado
Vai seguindo a juriti;
Mas tão pura ias brincando,
Pelas pedrinhas saltando,
Que eu tive pena de ti!

E disse então: — Moreninha,
Se um dia tu fores minha,
Que amor, que amor não terás!
Eu dou-te noites de rosas
Cantando canções formosas
Ao som dos meus ternos ais.

Morena, minha sereia,
Tu és a rosa da aldeia,
Mulher mais linda não há;
Ninguém t'iguala ou t'imita
Co'as tranças presas na fita,
Co'ás flores no samburá!

Tu és a deusa da praça,
E todo o homem que passa
Apenas viu-te... parou!
Segue depois seu caminho
Mas vai calado e sozinho
Por que sua alma ficou!

Tu és bela, Moreninha,
Sentada em tua banquinha
Cercada de todos nós;
Rufando alegre o pandeiro,
Como a ave no espinheiro
Tu soltas também a voz:

— "Oh! quem me compra estas flores?
"São lindas como os amores,
"Tão belas não há assim;
"Foram banhadas de orvalho,
"São flores do meu serralho,
"Colhi-as no meu jardim."

Morena, minha Morena,
És bela, mas não tens pena
De quem morre de paixão!
— Tu vendes flores singelas
E guardas as flores belas,
As rosas do coração?!...

Moreninha, Moreninha,
Tu és das belas rainha,
Mas nos amores és má;
— Como tu ficas bonita
Co'as tranças presas na fita,
Co'as flores no samburá!

Eu disse então: — "Meus amores,
"Deixa mirar tuas flores,
"Deixa perfumes sentir!"
Mas n'aquele doce enleio,
Em vez das flores, no seio,
No seio te fui bulir!

Como nuvem desmaiada
Se tinge de madrugada
Ao doce albor da manhã ;
Assim ficaste, querida,
A face em pejo acendida,
Vermelha como a romã!

Tu fugiste. feiticeira,
E de certo mais ligeira
Qualquer gazela não é ;
Tu ias de saia curta...
Saltando a moita de murta
Mostraste, mostraste o pé!

Ai! Morena, ai! meus amores,
Eu quero comprar-te as flores,
Mas dá-me um beijo também;
Que importam rosas do prado
Sem o sorriso engraçado
Que a tua boquinha tem?

Apenas vi-te, sereia,
Chamei-te — rosa da aldeia —
Como mais linda não há.
— Jesus ! Como eras bonita
Co'as tranças presas na fita,
Co'as flores no samburá!

til = tília, tipo de árvore cultivada para dar sombra

quinta-feira, 31 de julho de 2014

SOLEDADES, XI — Antonio Machado

Yo voy soñando caminos
de la tarde. ¡Las colinas
doradas, los verdes pinos,
las polvorientas encinas!...
¿Adonde el camino irá?
Yo voy cantando, viajero
a lo largo del sendero...
-La tarde cayendo está-,
"En el corazón tenía
la espina de una pasión;
logré arrancármela un día:
ya no siento el corazón."
Y todo el campo un momento
se queda, mudo y sombrío,
meditando. Suena el viento
en los álamos del río.
La tarde más se obscurece;
y el camino que serpea
y débilmente blanquea,
se enturbia y desaparece.
Mi cantar vuelve a plañir:
"Aguda espina dorada,
quién te pudiera sentir
en el corazón clavada."