Eu sou por Natureza feito para meu próprio bem; não para meu próprio mal.

Dos Ensinamentos Áureos de Epicteto.


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sábado, 27 de setembro de 2014

A MORTE DA ESPOSA DE CHUANGTSE

Quando morreu a esposa de Chuangtse, Hueitse foi expressar-lhe condolências, mas encontrou Chuangtse sentado no solo e cantando uma canção, cujo ritmo marcava com batidas num vaso de barro. Hueitse censurou-o:
"O quê! Essa mulher viveu contigo e te deu filhos. Poderias, talvez, abster-te de chorar, ao morrer seu velho corpo. Mas não achas que é demasiado, bateres nesse vaso e cantares?"
Chuangtse respondeu:
"Estás equivocado. Quando morreu, não pude deixar de me sentir triste e emocionado, mas refleti que no começo ela não teve vida, e não somente vida, mas também não teve forma corpórea; e não somente forma corpórea, mas também não teve espírito. Arrebatada por esse fluxo sempre cambiante das coisas, ela chegou a ser espírito, o espírito se fez corpo, e o corpo teve vida. Agora, ela mudou outra vez e morreu, e assim fazendo se agregou à eterna procissão da primavera, verão, outono e inverno. Por que devo fazer tanto estardalhaço e chorar e lamentar-me por ela, quando seu corpo está ali, quieto, na casa grande? Isso seria não ser capaz de compreender o curso das coisas. Por isso é que deixei de chorar.

domingo, 21 de setembro de 2014

CHUANGTSE CONTEMPLANDO UM CRÂNIO

Chuangtse foi a Ch'u e viu um crânio vazio, com seu contorno seco e vazio. Golpeou-o com um látego e lhe perguntou: " Chegaste a isso porque amavas os prazeres e vivias desordenadamente? Eras um fugitivo que se ocultava da lei? Fizeste alguma maldade que envergonhou teus pais e tua família? Ou padeceste fome até morrer? Ou chegaste à velhice e morreste de uma morte natural?"
Depois de dizer isso, Chuangtse pegou o crânio e dormiu, usando-o como travesseiro.

Lin Yutang, A Importância de Viver, Capítulo 3, 3

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A ALEGRIA DOS PEIXES — Zhuangzi

Em certa cidade, tem um bairro chamado Paraíso das Piabas. Esse belo nome lembra o diálogo entre Zhuangzi e Hui Zi.

Zhuangzi e Hui Zi estavam passeando numa ponte que atravessa o rio Hao, quando pararam por um momento.
Zhuangzi disse:
— Os peixes surgem e nadam tão devagar. Assim é que os peixes se alegram.
Hui Zi disse:
— Você não é um peixe. Como sabe que é assim que os peixes se alegram?
Zhuangzi disse:
— Você não é eu. Como sabe que eu não sei que é assim que os peixes se alegram?
Hui Zi disse:
— Eu não sou você e por isso, certamente, não sei o que você sabe. Você, certamente, não é um peixe e assim você não pode saber com certeza como um peixe se alegra!
Zhuangzi disse:
— Por favor, lembre-se do começo desta conversa. Você me perguntou como eu sabia que os peixes estavam se alegrando. Você é que fez a pergunta. Você já sabia que eu sabia disso, mas você me perguntou de qualquer maneira. Eu soube disso quando nós paramos aqui.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

SOBRE A INUTILIDADE — Zhuangzi

Tsech'i, de Nan-po, estava viajando pela colina de Shang quando viu uma árvore imensa, que o surpreendeu muito. Mil carruagens de quatro cavalos poderiam achar abrigo debaixo de sua sombra.
— Que árvore é esta? — exclamou Tsech'i. — Seguramente deve ter madeira extraordinariamente boa — observou.
Então, viu que seus ramos eram muito tortos para fazer vigas; e olhando para baixo viu que o tronco era retorcido e sem valor para caixões. Ele provou uma folha, mas isso lhe arrancou a pele dos lábios; e seu odor era tão forte que faria um homem se sentir mal durante três dias.
— Ah! — disse Tsech'i, — esta árvore não é realmente boa para nada, e por isso é que atingiu este tamanho. Um homem de espírito poderia bem seguir seu exemplo de inutilidade.