Eu sou por Natureza feito para meu próprio bem; não para meu próprio mal.

Dos Ensinamentos Áureos de Epicteto.


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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

DE AMOR E CIÚMES DESATINO — Goulart de Andrade

FORMAS POÉTICAS 34 — RONDÓ [1]
O rondó é um poema de forma fixa, também de origem francesa.
Há rondós de vários modelos.
O do tipo francês se estrutura em três estrofes – duas quintilhas separadas por um terceto. Ao fim do terceto e da segunda quintilha vem um refrão, formado pela primeira metade do primeiro verso. A estrutura métrica é variada, com apenas duas rimas. O exemplo seguinte, em octossílabos, foi composto ainda por Goulart de Andrade.

XII
(RONDÓ)


De amor e ciúmes desatino,
Porque te amar é meu destino,
— Causa do gozo e do sofrer! —
Se vivo é para te querer,
Mulher, fulgor, perfume ou hino!

O meu desejo, astro divino,
Cerca-te o vulto airoso e fino,
Como atmosfera, a te envolver,
De amor!

Ilha florida, eu te imagino,
E julgo o ciúme, agro e mofino,
Que me transtorna todo o ser,
Um bravo mar sempre a gemer,
A uivar, num ímpeto tigrino
De amor!...

Goulart de Andrade, Poesias 1900-1905.

domingo, 28 de dezembro de 2014

MEU CORAÇÃO, MINHA ALTIVEZ, PONHO A TEUS PÉS — Goulart de Andrade

FORMAS POÉTICAS 33 - RONDEL
O rondel – poema de forma fixa de origem francesa – se estrutura em duas quadras e uma quintilha, com apenas duas rimas, em que os dois primeiros versos da primeira quadra são o estribilho, pois se repetem nos dois versos finais da segunda quadra, sendo que o primeiro verso do poema será também o último.
O poema seguinte, sem título, vem no livro de Goulart de Andrade, Poesias 1900-1905, publicado em 1907.

XIII
(RONDEL)


Meu coração, minha altivez,
Ponho a teus pés, musa serena,
— Sonho de amor em noite plena
De redolência e languidez!

Tens para mim tanta algidez...
Pobre, que em troca desta pena,
Meu coração, minha altivez,
Ponho a teus pés, musa serena.

Fraco, a vontade se me esfez
Nesta volúpia que envenena...
Queres-me ver de rastro? Ordena,
Que eu deporei sob os teus pés
Meu coração, minha altivez...

sábado, 8 de novembro de 2014

AMOR PRÓPRIO — Voltaire

Um mendigo dos arredores de Madrid esmolava nobremente. Disse-lhe um transeunte:
— O sr. não tem vergonha de se dedicar a mister tão infame, quando podia trabalhar?
— Senhor, — respondeu o pedinte — estou lhe pedindo dinheiro e não conselhos. — E com toda a dignidade castelhana virou-lhe as costas.
Era um mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo não suportava reprimendas.
Viajando pela Índia, topou um missionário com um faquir carregado de cadeias, nu como um macaco, deitado sobre o ventre e deixando-se chicotear em resgate dos pecados de seus patrícios hindus, que lhe davam algumas moedas do país.
— Que renúncia de si próprio! — dizia um dos espectadores.
— Renúncia de mim próprio? — retorquiu o faquir. — Ficai sabendo que não me deixo açoitar neste mundo senão para vos retribuir no outro. Quando fordes cavalo e eu cavaleiro.
Tiveram pois plena razão os que disseram ser o amor de nós mesmos a base de todos as nossas ações — na Índia, na Espanha como em toda a terra habitável.
Supérfluo é provar aos homens que têm rosto. Supérfluo também seria demonstrar-lhes possuírem amor próprio. O amor próprio é o instrumento da nossa conservação. Assemelha-se ao instrumento da perpetuação da espécie. Necessitamo-lo. É-nos caro. Deleita-nos. — E cumpre ocultá-lo.

Voltaire, Dicionário Filosófico.