Eu sou por Natureza feito para meu próprio bem; não para meu próprio mal.

Dos Ensinamentos Áureos de Epicteto.


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terça-feira, 11 de novembro de 2014

A SEREIA DE LENAU — Manuel Bandeira

Quando na grave solidão do Atlântico
Olhavas da amurada do navio
O mar já luminoso e já sombrio,
Lenau! teu grande espírito romântico

Suspirava por ver dentro das ondas
Até o álveo profundo das areias,
A enxergar alvas formas de sereias
De braços nus e nádegas redondas.

Ilusão! que sem cauda aqueles seres,
Deixando o ermo monótono das águas,
Andam em terra suscitando mágoas,
Misturadas às filhas das mulheres.

Nikolaus Lenau, poeta da amargura!
Uma te amou, chamava-se Sofia.
E te levou pela melancolia
Ao oceano sem fundo da loucura.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

FANTASIA DO CREPÚSCULO — Friedrich Hölderlin

Descansa o lavrador à sua porta
E vê o fumo do lar subir, contente.
Hospitaleiramente ao caminhante
Acolhem os sinos da aldeia.

Voltam os marinheiros para o porto.
Em longínquas cidades amortece
O ruído dos mercados; na latada
Brilha a mesa para os amigos.

Ai de mim! de trabalho e recompensa
Vivem os homens, alternando alegres
Lazer e esforço: por que só em meu peito
Então nunca dorme este espinho?

No céu da tarde cheira a primavera;
Rosas florescem; sossegado fulge
O mundo das estrelas. Oh! levai-me,
Purpúreas nuvens, e lá em cima

Em luz e ar se me esvaia amor e mágoa!
Mas, do insensato voto afugentado,
Vai-se o encanto; escurece, e, solitário,
Como sempre, fico ao relento.

Vem, suave sono! Por demais anseia
O coração; um dia enfim te apagas,
Ó mocidade inquieta e sonhadora!
E chega serena a velhice.

Tradução de Manuel Bandeira, grande poeta modernista brasileiro.
 

terça-feira, 5 de agosto de 2014

SOBRE PSEUDÔNIMOS 03

Um italiano do século 18, viajando por uma cidade alemã, foi questionado pelo burgomestre da seguinte maneira:
— Por que você assume um nome falso?
E prosseguiu, dizendo:
— Seu nome é Casanova. Então, por que você se apresenta como Seingalt?
Casanova, o acima referido viajante italiano do século 18, assim respondeu:
— Eu assumi esse nome, ou melhor eu o assumo, porque me pertence, e de tal maneira que, se qualquer pessoa se atrever a assumi-lo, eu o contestarei, como minha propriedade, por todos os meios legítimos.
— Ah! e por que é que este nome pertence a você?
— Porque eu o inventei; mas isso não me impede de ser Casanova também.
O burgomestre indagou:
— Afinal de contas, como alguém pode inventar um nome?
— É a coisa mais simples no mundo — Casanova respondeu.
— Tenha a bondade de me explicar isso.
— O alfabeto pertence de modo igual à espécie humana inteira; ninguém pode negar isso. Eu escolhi oito letras e as combinei de modo a elaborar a palavra Seingalt.  Me agradou, e eu a adotei como meu sobrenome, estando persuadido firmemente de que, como ninguém tinha assumido este nome antes, ninguém poderia me privar dele, ou assumi-lo sem meu consentimento.
Suas memórias, que escreveu em francês — Histoire de Ma Vie — e assinou como Jacques Casanova de Seingalt, merecem leitura, mesmo por quem não tem curiosidade histórica, nem se interessa pelos usos e costumes da Europa durante o 18º século.
A propósito: os filmes baseados na Histoire de Ma Vie não chegam perto da qualidade do livro.