Eu sou por Natureza feito para meu próprio bem; não para meu próprio mal.

Dos Ensinamentos Áureos de Epicteto.


Mostrando postagens com marcador arcadismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador arcadismo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

LUZ DO SOL, QUANTO ÉS FORMOSA — Silva Alvarenga

FORMAS POÉTICAS 34 — RONDÓ [4]
Para encerrar, o rondó arcádico tem uma quadra-refrão entre duas quadras ou uma oitava. Os versos são redondilhas maiores, com rimas encadeadas. O poeta que melhor realizou esse tipo de poema foi Silva Alvarenga.

A LUZ DO SOL

Luz do sol, quanto és formosa,
Quem te goza não conhece;
Mas se desce a noite fria,
Principia a suspirar.

Quando puro se derrama
Vivo ardor no ameno prado,
Pelas brenhas foge o gado
Verde rama a procurar.
E se o astro luminoso
Deixa tudo em sombra fusca
Triste então o abrigo busca
Vagaroso a ruminar.

Luz do sol, quanto és formosa,
Quem te goza não conhece;
Mas se desce a noite fria,
Principia a suspirar.

Lavrador, que aflito e velho,
Sobre o campo endurecido,
Ver deseja submergido
O vermelho sol no mar.
E se o úmido negrume
Tolda os céus, e os vales banha,
Fita os olhos na montanha,
Onde o lume vê raiar.

Luz do sol, quanto és formosa,
Quem te goza não conhece;
Mas se desce a noite fria,
Principia a suspirar.

Pela tarde mais ardente
O pastor estima as grutas,
Onde penhas nunca enxutas
Vê contente gotejar.
E se as trevas no horizonte
Desenrolam negro manto,
Com saudoso e flébil* canto
Faz o monte ressonar.

Luz do sol, quanto és formosa,
Quem te goza não conhece;
Mas se desce a noite fria,
Principia a suspirar.

Assim Glaura, que inflamada
Perseguiu aves ligeiras,
Quer à sombra das mangueiras
Descansada respirar.
Entre risos, entre amores,
Se lhe falta o dia, chora,
E vem cedo a ver a aurora
Sobre as flores orvalhar.

Luz do sol, quanto és formosa,
Quem te goza não conhece;
Mas se desce a noite fria,
Principia a suspirar.

Silva Alvarenga, in Glaura, Poemas Eróticos, Rondós.

* flébil = choroso, lacrimoso.

domingo, 21 de dezembro de 2014

EU CANTO OS DOUS PASTORES — Cláudio Manuel da Costa

FORMAS POÉTICAS 30 — POEMA BUCÓLICO [2]
Outra variante do poema bucólico é a écloga ou égloga. É um tipo de poema em que pastores e suas amadas dialogam. Vão algumas estrofes da Écloga 1 do árcade mineiro.

ÉCLOGA 1
OS MAIORAIS DO TEJO

Montano, Corebo, Lise e Laura

Eu canto os dous Pastores
Que o Tejo cristalino
Na bela margem viu: canto o divino
Assunto dos amores,
Que de inveja, e de agrado
O céu, a terra, o mar tem namorado.

Também das Ninfas belas,
Que Amor viu abrasadas,
Os números entoo: se entre aquelas
Cadências delicadas,
Rude o som de meu canto
Se faz digno, Senhor, de obséquio tanto.

..............................................................

Em uma tarde, quando
Os músicos Pastores
Ao som da acorde flauta recitando
Estavam seus amores,
Nas vozes, que afinavam,
Deste modo a cantar se preparavam:

COREBO. Já que estamos, Montano, neste monte,
Sem outra companhia, enquanto o gado,
Buscando as doces águas dessa fonte,
Vem concorrendo dum, e doutro lado,
Aqui deste salgueiro,
Sentados junto à sombra, eu te requeiro,
Torna-me a repetir aquela história,
Que toda esta minha alma encheu de glória.

MONTANO. Dos nossos Maiorais a grande festa,
Corebo, quem a viu jamais se farta
De a contar: mas enquanto a fresca sesta
A nós se chega, enquanto o Sol se aparta,
Tomando a flauta doce,
O caso contarei; mas ah! se fosse
Minha voz tão suave, e tão divina,
Como aquela que pede ação tão digna!

..............................................................

sábado, 20 de dezembro de 2014

ROUBANDO AMOR UM DOCE FAVO UM DIA — Teócrito

FORMAS POÉTICAS 30 — POEMA BUCÓLICO [1]
Os poemas bucólicos referem-se à vida e costumes dos antigos pastores gregos, que se supunha serem simples, graciosos e inocentes.
Uma de suas variantes é o idílio ou pequena ode. Foi muito empregada pelos poetas arcádicos. O exemplo que se segue é de Teócrito.

IDÍLIO 19
O Ladrão de Mel

Roubando Amor um doce favo um dia,
Uma abelha cruel no dedo o pica:
Ele zangado fica,
Assopra os dedos, pula, se arrelia,
Bate com os pés por dor atroz levado,
E à mãe queixar-se vai muito admirado
Que um tão mesquinho inseto produzisse
Picadas tão doridas:
Afrodite sorri-se:
— De que te admiras? diz-lhe em tom ameno,
Pois não és como a abelha? és tão pequeno
E quanto sóis fazer fundas feridas!

Tradução de Lucindo Filho.


sábado, 13 de dezembro de 2014

SUAVE FONTE PURA, QUE DESCES MURMURANDO — Silva Alvarenga

Formas Poéticas 24 — MADRIGAL
De origem italiana, tornou-se um poema de estrofe única, com metros alternados, como se pode ver no seguinte madrigal de Silva Alvarenga.

MADRIGAL 01

Suave fonte pura,
Que desces murmurando sobre a areia,
Eu sei que a linda Glaura se recreia
Vendo em ti de seus olhos a ternura;
Ela já te procura;
Ah! como vem formosa e sem desgosto!
Não lhe pintes o rosto:
Pinta-lhe, ó clara fonte, por piedade
Meu terno amor, minha infeliz saudade.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

AMADA FILHA, É JÁ CHEGADO O DIA — Alvarenga Peixoto

FORMAS POÉTICAS 17 — GENETLÍACO
O poema genetlíaco celebra o nascimento e os aniversários. O seguinte soneto genetlíaco foi escrito para sua filha, pelo desventurado poeta e conjurado Inácio José de Alvarenga Peixoto.

A MARIA EFIGÊNIA, EM 1786, QUANDO COMPLETAVA SETE ANOS DE IDADE

Amada filha, é já chegado o dia,
Em que a luz da razão, qual tocha acesa,
Vem conduzir a simples natureza,
É hoje que o teu mundo principia.

A mão, que te gerou, teus passos guia,
Despreza ofertas de uma vã beleza,
E sacrifica as honras e a riqueza
Às santas leis do Filho de Maria.

Estampa na tu'alma a caridade,
Que amar a Deus, amar aos semelhantes,
São eternos preceitos da verdade.

Tudo o mais são ideias delirantes;
Procura ser feliz na eternidade,
Que o mundo são brevíssimos instantes.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

NESTE DIA FATAL, INFAUSTO DIA — Lereno Selinuntino

Neste Dia fatal, infausto Dia,
Nasceu ao Mundo mais um desgraçado;
E bem que pelas Musas embalado,
Só para Melpoméne é que nascia.

Quando a funesta aurora ressurgia,
O lúcido caminho achou turbado,
Negro vapor da terra aos Céus alçado,
Veio empecer-lhe a alegre louçania;

Três vezes troa o Céu, e do Cocito
Soltou a Inveja as viperinas tranças,
Soou da parte esquerda um rouco grito:

Ah! nasceste infeliz, e em vão te cansas;
Lereno, já teu fado estava escrito,
Serão teu maior bem vãs esperanças.

Melpômene era a musa da tragédia. O poeta mudou o acento por razões de métrica.
louçania = elegância
Cocito é um dos rios do inferno mitológico (Hades).

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

MODA DE TIRCE (CANTIGAS) — Lereno Selinuntino

Vê, Lereno desgraçado,
O teu destino cruel;
Amar, e morrer de amores,
Por quem te não é fiel.

Vêm os terríveis ciúmes
Rodear-te de tropel;
Hás de contínuo sofrê-los
Por quem te não é fiel.

Dos amantes desgraçados
Vê o terrível painel,
Tanto tens que suportar
Por quem te não é fiel.

Verás as doces promessas
Converter-se amargo fel,
Desvanecer-se a esperança
Por quem te não é fiel.

A mão treme de assustada,
Cai dos dedos o pincel,
Não pinto o que hás de passar
Por quem te não é fiel.

Nunca beleza, e constância
Guardarão próprio nivel;
Sofre por Lília, mas sofre
Por quem te não é fiel.

Embora seja enganado
O néscio amante novel,
Qu'o tempo te desengana;
Por quem te não é fiel.

Mas amor tem arte, e jeito
D'espalhar seu doce mel,
E te faz ser doce a morte
Por quem te não é fiel.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

SONETO 2 — Correia Garção

Lutando com mil sustos, mil pesares,
Com desprezos, enganos, e rigores,
A teu rosto gentil, olhos traidores,
Templos lhe consagrei, ergui-lhe altares.

Rociadas de lágrimas a mares
Degolavam as vítimas Amores:
Ara cruel! suspiros, mágoas, dores
Lançava em denso fumo aos mansos ares.

Chegou Marília de mudar-te o dia;
Teias, secure, pira, vasos, fogo,
Tudo rompeste, tudo aos pés pisaste.

Triunfou, triunfou a tirania,
Mas apesar do altivo desafogo
Ilesa a fé, ileso o amor deixaste.

Secure: está assim no original. Não é a palavra inglesa. Se alguém souber o significado, gostaria de receber a informação.

sábado, 25 de outubro de 2014

TRÊS VEZES VI, MARÍLIA — Correia Garção

Três vezes vi, Marília, de alva lua
Cheio de luz o rosto prateado,
Sem que dourasse o campo matizado
A linda aurora da presença tua.

Então subindo à serra calva e nua,
De um íngreme rochedo pendurado,
Os olhos alongando pelo prado,
Chamava, mas em vão, a morte crua.

Ali comigo vinham ter pastores,
Que meus suspiros férvidos ouviam,
Cortados do alarido dos clamores.

Tanto que a causa do meu mal sabiam,
Julgando sem remédio minhas dores,
Por não poder-me consolar, fugiam.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

MADRIGAL 01 — Silva Alvarenga

Suave fonte pura,
Que desces murmurando sobre a areia,
Eu sei que a linda Glaura se recreia
Vendo em ti de seus olhos a ternura;
Ela já te procura;
Ah! como vem formosa e sem desgosto !
Não lhe pintes o rosto:
Pinta-lhe, ó clara fonte, por piedade
Meu terno amor, minha infeliz saudade.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

BÁRBARA BELA — Alvarenga Peixoto

Bárbara bela,
Do Norte estrela,
Que o meu destino
Sabes guiar,
De ti ausente,
Triste somente
As horas passo
A suspirar.
Isto é castigo
que Amor me dá.
Por entre as penhas
De incultas brenhas
Cansa-me a vista
De te buscar;
Porém não vejo
Mais que o desejo,
Sem esperança
De te encontrar.
Isto é castigo
que Amor me dá.
Eu bem queria
A noite e o dia
Sempre contigo
Poder passar;
Mas orgulhosa
Sorte invejosa
Desta fortuna
Me quer privar.
Isto é castigo
que Amor me dá.
Tu, entre os braços,
Ternos abraços
Da filha amada
Podes gozar.
Priva-me a estrela
De ti e dela,
Busca dois modos
De me matar.
Isto é castigo
que Amor me dá.

domingo, 7 de setembro de 2014

SONETO 39 — Cláudio Manoel da Costa

Breves horas, Amor, há, que eu gozava
A glória, que minha alma apetecia;
E sem desconfiar da aleivosia,
Teu lisonjeiro obséquio acreditava.
Eu só à minha dita me igualava;
Pois assim avultava, assim crescia,
Que nas cenas, que então me oferecia,
O maior gosto, o maior bem lograva;
Fugiu, faltou-me o bem: já descomposta
Da vaidade a brilhante arquitetura,
Vê-se a ruína ao desengano exposta:
Que ligeira acabou, que mal segura!
Mas que venho a estranhar, se estava posta
Minha esperança em mãos da formosura!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

MARÍLIA DE DIRCEU, PARTE 2, LIRA 37 — Tomaz Antonio Gonzaga

Meu sonoro Passarinho,
Se sabes do meu tormento,
E buscas dar-me, cantando,
Um doce contentamento,

Ah! não cantes, mais não cantes,
Se me queres ser propício;
Eu te dou em que me faças
Muito maior benefício.

Ergue o corpo, os ares rompe,
Procura o Porto da Estrela,
Sobe à serra, e se cansares,
Descansa num tronco dela,

Toma de Minas a estrada,
Na Igreja nova, que fica
Ao direito lado, e segue
Sempre firme a Vila Rica.

Entra nesta grande terra,
Passa uma formosa ponte,
Passa a segunda, a terceira
Tem um palácio defronte.

Ele tem ao pé da porta
Uma rasgada janela,
É da sala, aonde assiste
A minha Marília bela.

Para bem a conheceres,
Eu te dou os sinais todos
Do seu gesto, do seu talhe,
Das suas feições, e modos.

O seu semblante é redondo,
Sobrancelhas arqueadas,
Negros e finos cabelos,
Carnes de neve formadas.

A boca risonha, e breve,
Suas faces cor-de-rosa,
Numa palavra, a que vires
Entre todas mais formosa.

Chega então ao seu ouvido,
Dize, que sou quem te mando,
Que vivo neta masmorra,
Mas sem alívio penando.