Eu sou por Natureza feito para meu próprio bem; não para meu próprio mal.

Dos Ensinamentos Áureos de Epicteto.


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domingo, 21 de dezembro de 2014

EU CANTO OS DOUS PASTORES — Cláudio Manuel da Costa

FORMAS POÉTICAS 30 — POEMA BUCÓLICO [2]
Outra variante do poema bucólico é a écloga ou égloga. É um tipo de poema em que pastores e suas amadas dialogam. Vão algumas estrofes da Écloga 1 do árcade mineiro.

ÉCLOGA 1
OS MAIORAIS DO TEJO

Montano, Corebo, Lise e Laura

Eu canto os dous Pastores
Que o Tejo cristalino
Na bela margem viu: canto o divino
Assunto dos amores,
Que de inveja, e de agrado
O céu, a terra, o mar tem namorado.

Também das Ninfas belas,
Que Amor viu abrasadas,
Os números entoo: se entre aquelas
Cadências delicadas,
Rude o som de meu canto
Se faz digno, Senhor, de obséquio tanto.

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Em uma tarde, quando
Os músicos Pastores
Ao som da acorde flauta recitando
Estavam seus amores,
Nas vozes, que afinavam,
Deste modo a cantar se preparavam:

COREBO. Já que estamos, Montano, neste monte,
Sem outra companhia, enquanto o gado,
Buscando as doces águas dessa fonte,
Vem concorrendo dum, e doutro lado,
Aqui deste salgueiro,
Sentados junto à sombra, eu te requeiro,
Torna-me a repetir aquela história,
Que toda esta minha alma encheu de glória.

MONTANO. Dos nossos Maiorais a grande festa,
Corebo, quem a viu jamais se farta
De a contar: mas enquanto a fresca sesta
A nós se chega, enquanto o Sol se aparta,
Tomando a flauta doce,
O caso contarei; mas ah! se fosse
Minha voz tão suave, e tão divina,
Como aquela que pede ação tão digna!

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sábado, 20 de dezembro de 2014

ROUBANDO AMOR UM DOCE FAVO UM DIA — Teócrito

FORMAS POÉTICAS 30 — POEMA BUCÓLICO [1]
Os poemas bucólicos referem-se à vida e costumes dos antigos pastores gregos, que se supunha serem simples, graciosos e inocentes.
Uma de suas variantes é o idílio ou pequena ode. Foi muito empregada pelos poetas arcádicos. O exemplo que se segue é de Teócrito.

IDÍLIO 19
O Ladrão de Mel

Roubando Amor um doce favo um dia,
Uma abelha cruel no dedo o pica:
Ele zangado fica,
Assopra os dedos, pula, se arrelia,
Bate com os pés por dor atroz levado,
E à mãe queixar-se vai muito admirado
Que um tão mesquinho inseto produzisse
Picadas tão doridas:
Afrodite sorri-se:
— De que te admiras? diz-lhe em tom ameno,
Pois não és como a abelha? és tão pequeno
E quanto sóis fazer fundas feridas!

Tradução de Lucindo Filho.


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A MELISSO, TEBANO — Píndaro

Formas Poéticas 26 - Ode [2]
Não apenas a temática determina a forma das odes anacreônticas e pindáricas. Elas apresentam uma estrutura métrica própria, em que as sílabas se alternam — ora longas, ora breves. Mas, por enquanto, não pretendo entrar nessa questão da versificação greco-latina. Assim, considerando apenas os temas abordados, as odes anacreônticas são celebrações dos prazeres da vida breve, e as odes pindáricas são hinos triunfais, associados aos antigos jogos olímpicos, que tinham um papel cívico, religioso e moral. A seguinte ode de Píndaro foi composta por ocasião de um dos Jogos Ístmicos.

A MELISSO, TEBANO
Vencedor da corrida de cavalos

Se alguma vez houve um mortal digno de ouvir a celebração de seu nome por seus concidadãos, foi esse que, coberto pelos dons da fortuna e da vitória, soube preservar seu coração do orgulho, filho insolente da Saciedade. Ó Júpiter! é de ti que os homens recebem as grandes virtudes: mas a prosperidade, cujos fundamentos se apoiam sobre uma sábia providência, só pode crescer e perdurar, enquanto aquela que decorre da perversidade do coração tem apenas a radiância de uma flor passageira.

Quanto ao atleta corajoso, nossos hinos são a mais digna recompensa de suas belas ações, e o poeta, ajudado pelas Graças, se deleita por imortalizá-lo em seus cantos. Assim, duas vitórias que a fortuna concedeu a Melisso1 levaram à plenitude sua alegria: vencedor na corrida de cavalos, ele acaba de ser coroado nos vales do Istmo2, e há pouco ouviu proclamar o nome de Tebas, sua pátria, não longe da sombria floresta onde habitava no passado o leão tão temível.

Não, Melisso não degenerou da virtude de seus ancestrais. Vós todos sabeis, Tebanos, quanta glória adquiriu no passado seu ancestral Cleônimo na corrida de carros; a que nível de honra e de prosperidade chegaram por seus trabalhos e suas vitórias os Labdacidas3, seus antepassados maternos! Mas o Tempo que, em seu curso, arrasta os dias, traz estranhas mudanças: ele eleva um, abaixa outro; só os filhos dos deuses estão ao abrigo de seus golpes.


1 Istmo de Corinto, que ligava a Grécia continental e o Peloponeso.

2 Melisso descendia de Édipo por parte de sua mãe.

3 Os Labdácidas descendiam de Lábdaco, pai de Laio, por sua vez pai de Édipo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A ROSA É A HONRA E O ENCANTO DAS FLORES — Anacreonte

FORMAS POÉTICAS 26 — ODE [1]
Dada a complexidade dessa forma, que mudou muito ao longo dos séculos, vou começar pela ode anacreôntica, também chamada ode amorosa ou pastoril. Seus temas são espirituosos e o tratamento é ligeiro, mesmo quando a presença da morte se faz sentir. O exemplo vem do próprio Anacreonte, traduzido (de passagem) da versão francesa de Leconte de Lisle.

ODE 5
Sobre a rosa

Mesclemos a Dioniso a rosa de Eros, e, a cabeça cingida de belas folhas de rosas, bebamos, rindo docemente.
A rosa é a honra e o encanto das flores; a rosa é o desejo e o desvelo da primavera; a rosa é a volúpia dos deuses!
O filho de Vênus se coroa de corolas de rosas, quando ele se mistura com o coro das Graças.
Coroai-me então, ó Dioniso, a fim de que, os cabelos ornados de rosas, eu cante nos templos, e que eu dirija as danças, acompanhado por uma bela jovem!

Na mesma temática, há o poema de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa:

Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade,
De rosas —
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.

E, para encerrar com brilho, a 1ª Ode Anacreôntica do extraordinário brasileiro e poeta, Natividade Saldanha, O Galo de Campina.

Campino galo
De garbo cheio,
No prado voa
De amar contente;
orna-lhe a frente
Vermelha c'roa.

Ave tão bela
Não viu ninguém.

Colar purpúreo
Lhe adorna o peito;
Quando ele entoa
Doces amores
Por entre as flores
A voz ressoa.

Ave tão bela
Não viu ninguém.



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

CARTA DE LIBÂNIO A ARISTONETO — Francisco Rodrigues Lobo

As cartas jocosas, ou de galantaria, têm mais campo, e liberdade para se poderem usar nelas alguns termos fora das limitações das nossas regras; porque assim em se entenderem mais, como em se sujeitarem menos, ficam desobrigados das primeiras leis, que são brevidade sem enfeite, clareza sem rodeios, propriedade sem metáforas; pois o termo da graça e galantaria, nisso se diferencia do sisudo e pontual; não negando que há algumas que não perdem a graça nem o siso, como é uma que Libânio escreveu a Aristoneto, que dizia:

"Onde vos achais, sei que dizeis sempre mal de mim; eu pelo contrário não perco ocasião de dizer louvores vossos; porém quem a ambos nos conhecer, a nenhum de nós há de dar crédito."
 
Francisco Rodrigues Lobo, Corte na Aldeia e Noites de Inverno, Diálogo III.
 
Libânio foi um filósofo sofista grego e professor de retórica.
Aristoneto de Nicéia foi um dos principais escritores gregos de epístolas.