Eu sou por Natureza feito para meu próprio bem; não para meu próprio mal.

Dos Ensinamentos Áureos de Epicteto.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

DE COLOMBINA O INFANTIL BORZEGUIM — Manuel Bandeira

FORMAS POÉTICAS 34 — RONDÓ [3]
O rondó simples tem três estrofes – duas quadras e uma sextilha – com a metade inicial do primeiro verso do poema a servir de refrão, em seguida à segunda quadra e à sextilha. Duas rimas – cruzadas nas quadras, com uma terceira rima na sextilha. O exemplo vem ainda de Manuel Bandeira.

RONDÓ DE COLOMBINA

De Colombina o infantil borzeguim
Pierrot aperta a chorar de saudade.
O sonho passou. Traz magoado o rim,
Magoada a cabeça exposta à umidade.

Lavou o orvalho o alvaiade e o carmim.
A alva desponta. Dói-lhe a claridade
Nos olhos tristes. Que é dela?... Arlequim
Levou-a! e dobra o desejo à maldade
De Colombina.

O seu desencanto não tem um fim.
Pobre Pierrot! Não lhe queiras assim.
Que são teus amores?... — Ingenuidade
E o gosto de buscar a própria dor.
Ela é de dois?... Pois aceita a metade!
Que essa metade é talvez todo o amor
De Colombina...

Manuel Bandeira, in Carnaval.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

OS CAVALINHOS CORRENDO, E NÓS, CAVALÕES, COMENDO — Manuel Bandeira

FORMAS POÉTICAS 34 — RONDÓ [2]
O rondó dobrado é composto por seis quadras – ou cinco, com a última unida a um terceto. As rimas são duas. O refrão é constituído pelos dois primeiros versos, que se repetem no início de todas as quadras. O exemplo clássico vem de Manuel Bandeira.

RONDÓ DOS CAVALINHOS

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Tua beleza, Esmeralda,
Acabou me enlouquecendo.

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O sol tão claro lá fora
E em minh'alma — anoitecendo!

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Alfonso Reyes partindo,
E tanta gente ficando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo...
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minh'alma — anoitecendo!

Manuel Bandeira, in Estrela da Manhã.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

DE AMOR E CIÚMES DESATINO — Goulart de Andrade

FORMAS POÉTICAS 34 — RONDÓ [1]
O rondó é um poema de forma fixa, também de origem francesa.
Há rondós de vários modelos.
O do tipo francês se estrutura em três estrofes – duas quintilhas separadas por um terceto. Ao fim do terceto e da segunda quintilha vem um refrão, formado pela primeira metade do primeiro verso. A estrutura métrica é variada, com apenas duas rimas. O exemplo seguinte, em octossílabos, foi composto ainda por Goulart de Andrade.

XII
(RONDÓ)


De amor e ciúmes desatino,
Porque te amar é meu destino,
— Causa do gozo e do sofrer! —
Se vivo é para te querer,
Mulher, fulgor, perfume ou hino!

O meu desejo, astro divino,
Cerca-te o vulto airoso e fino,
Como atmosfera, a te envolver,
De amor!

Ilha florida, eu te imagino,
E julgo o ciúme, agro e mofino,
Que me transtorna todo o ser,
Um bravo mar sempre a gemer,
A uivar, num ímpeto tigrino
De amor!...

Goulart de Andrade, Poesias 1900-1905.

domingo, 28 de dezembro de 2014

MEU CORAÇÃO, MINHA ALTIVEZ, PONHO A TEUS PÉS — Goulart de Andrade

FORMAS POÉTICAS 33 - RONDEL
O rondel – poema de forma fixa de origem francesa – se estrutura em duas quadras e uma quintilha, com apenas duas rimas, em que os dois primeiros versos da primeira quadra são o estribilho, pois se repetem nos dois versos finais da segunda quadra, sendo que o primeiro verso do poema será também o último.
O poema seguinte, sem título, vem no livro de Goulart de Andrade, Poesias 1900-1905, publicado em 1907.

XIII
(RONDEL)


Meu coração, minha altivez,
Ponho a teus pés, musa serena,
— Sonho de amor em noite plena
De redolência e languidez!

Tens para mim tanta algidez...
Pobre, que em troca desta pena,
Meu coração, minha altivez,
Ponho a teus pés, musa serena.

Fraco, a vontade se me esfez
Nesta volúpia que envenena...
Queres-me ver de rastro? Ordena,
Que eu deporei sob os teus pés
Meu coração, minha altivez...

sábado, 27 de dezembro de 2014

TENHO DUAS ROSAS NA FACE, NENHUMA NO CORAÇÃO — Murilo Mendes

FORMAS POÉTICAS 32 — POEMA-PIADA
O poema-piada é um poema curto, de espírito trocista, que – no começo do movimento moderno – visava ridicularizar o formalismo dos poetas parnasianos e o sentimentalismo romântico.
Basta um exemplo:

Tenho duas rosas na face,
nenhuma no coração;
do lado esquerdo da face
também costuma dar alface,
do lado direito não.

Murilo Mendes, Amostra da Poesia Local.

Ou não basta. Segue Filosofia, de Ascenso Ferreira:

Hora de comer — comer!
Hora de dormir — dormir!
Hora de vadiar — vadiar!
Hora de trabalhar?
— Pernas para o ar, que ninguém é de ferro!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

ESTRELAS SINGELAS, LUZEIROS FAGUEIROS — Fagundes Varella

Formas poéticas 31 — Poema Figurativo
Não se trata de poema com sentido figurado, mas de um poema visual, cujos versos são dispostos de modo a reproduzir a forma do objeto de que se fala. Já era conhecido dos antigos gregos e romanos. Há múltiplos exemplos, mas ficarei com o poema de Fagundes Varella que abre seus Cantos Religiosos.

 
Estrelas
Singelas,
Luzeiros
Fagueiros,
Esplêndidos orbes, que o mundo aclarais!
Desertos e mares, — florestas vivazes!
Montanhas audazes que o céu topetais!
Abismos
Profundos!
Cavernas
Eternas!
Extensos,
Imensos
Espaços
Azuis!
Altares e tronos,
Humildes e sábios, soberbos e grandes!
Dobrai-vos ao vulto sublime da cruz!
Só ela nos mostra da glória o caminho,
Só ela nos fala das leis de — Jesus!