Eu sou por Natureza feito para meu próprio bem; não para meu próprio mal.

Dos Ensinamentos Áureos de Epicteto.


Mostrando postagens com marcador filosofia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filosofia. Mostrar todas as postagens

sábado, 8 de novembro de 2014

AMOR PRÓPRIO — Voltaire

Um mendigo dos arredores de Madrid esmolava nobremente. Disse-lhe um transeunte:
— O sr. não tem vergonha de se dedicar a mister tão infame, quando podia trabalhar?
— Senhor, — respondeu o pedinte — estou lhe pedindo dinheiro e não conselhos. — E com toda a dignidade castelhana virou-lhe as costas.
Era um mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo não suportava reprimendas.
Viajando pela Índia, topou um missionário com um faquir carregado de cadeias, nu como um macaco, deitado sobre o ventre e deixando-se chicotear em resgate dos pecados de seus patrícios hindus, que lhe davam algumas moedas do país.
— Que renúncia de si próprio! — dizia um dos espectadores.
— Renúncia de mim próprio? — retorquiu o faquir. — Ficai sabendo que não me deixo açoitar neste mundo senão para vos retribuir no outro. Quando fordes cavalo e eu cavaleiro.
Tiveram pois plena razão os que disseram ser o amor de nós mesmos a base de todos as nossas ações — na Índia, na Espanha como em toda a terra habitável.
Supérfluo é provar aos homens que têm rosto. Supérfluo também seria demonstrar-lhes possuírem amor próprio. O amor próprio é o instrumento da nossa conservação. Assemelha-se ao instrumento da perpetuação da espécie. Necessitamo-lo. É-nos caro. Deleita-nos. — E cumpre ocultá-lo.

Voltaire, Dicionário Filosófico.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

OPINIÃO SOBRE O BEM E O MAL — Montaigne

Homens (diz um antigo provérbio grego) são atormentados pelas opiniões que têm das coisas e não pelas coisas em si. Seria uma grande vitória obtida para o alívio de nossa miserável condição humana, se esta proposição pudesse ser estabelecida como totalmente verdadeira. Pois se os males têm entrada em nós apenas pelo julgamento que nós mesmos fazemos deles, parece que está, então, em nosso próprio poder os menosprezar ou os transformar em bem. Se essas coisas dependem de nós, por que nós não as transformamos e as adaptamos para nosso proveito? Se o que chamamos mal e tormento não é nem mau nem tormento por si mesmo, mas só nossa fantasia é que lhes atribui tal qualidade, podemos mudar isto. E se isto só depende de nossa própria escolha, se não há nada nos coagindo, seríamos certamente muito tolos, em fortificar aquilo que nos é muito prejudicial, atribuindo à doença, à privação, e ao desprezo um gosto amargo e repugnante, se está em nosso poder lhes dar um alívio prazeroso. E se o destino apenas fornece o assunto, a nós é que cabe lhe darmos forma.

sábado, 27 de setembro de 2014

A MORTE DA ESPOSA DE CHUANGTSE

Quando morreu a esposa de Chuangtse, Hueitse foi expressar-lhe condolências, mas encontrou Chuangtse sentado no solo e cantando uma canção, cujo ritmo marcava com batidas num vaso de barro. Hueitse censurou-o:
"O quê! Essa mulher viveu contigo e te deu filhos. Poderias, talvez, abster-te de chorar, ao morrer seu velho corpo. Mas não achas que é demasiado, bateres nesse vaso e cantares?"
Chuangtse respondeu:
"Estás equivocado. Quando morreu, não pude deixar de me sentir triste e emocionado, mas refleti que no começo ela não teve vida, e não somente vida, mas também não teve forma corpórea; e não somente forma corpórea, mas também não teve espírito. Arrebatada por esse fluxo sempre cambiante das coisas, ela chegou a ser espírito, o espírito se fez corpo, e o corpo teve vida. Agora, ela mudou outra vez e morreu, e assim fazendo se agregou à eterna procissão da primavera, verão, outono e inverno. Por que devo fazer tanto estardalhaço e chorar e lamentar-me por ela, quando seu corpo está ali, quieto, na casa grande? Isso seria não ser capaz de compreender o curso das coisas. Por isso é que deixei de chorar.

domingo, 21 de setembro de 2014

CHUANGTSE CONTEMPLANDO UM CRÂNIO

Chuangtse foi a Ch'u e viu um crânio vazio, com seu contorno seco e vazio. Golpeou-o com um látego e lhe perguntou: " Chegaste a isso porque amavas os prazeres e vivias desordenadamente? Eras um fugitivo que se ocultava da lei? Fizeste alguma maldade que envergonhou teus pais e tua família? Ou padeceste fome até morrer? Ou chegaste à velhice e morreste de uma morte natural?"
Depois de dizer isso, Chuangtse pegou o crânio e dormiu, usando-o como travesseiro.

Lin Yutang, A Importância de Viver, Capítulo 3, 3

domingo, 13 de julho de 2014

AFORISMO N° 3 — KAFKA

"Há dois pecados mortais humanos donde provêm todos os outros: a impaciência e a preguiça. Foram expulsos do Paraíso por causa da sua impaciência, não voltam lá por causa da sua preguiça. Mas talvez não haja senão um pecado mortal: a impaciência. Foram expulsos por causa da impaciência e é por causa da impaciência que lá não voltam."
Franz Kafka, Meditações Sobre o Pecado, o Sofrimento, a Esperança e o Verdadeiro Caminho