Eu sou por Natureza feito para meu próprio bem; não para meu próprio mal.

Dos Ensinamentos Áureos de Epicteto.


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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A MELISSO, TEBANO — Píndaro

Formas Poéticas 26 - Ode [2]
Não apenas a temática determina a forma das odes anacreônticas e pindáricas. Elas apresentam uma estrutura métrica própria, em que as sílabas se alternam — ora longas, ora breves. Mas, por enquanto, não pretendo entrar nessa questão da versificação greco-latina. Assim, considerando apenas os temas abordados, as odes anacreônticas são celebrações dos prazeres da vida breve, e as odes pindáricas são hinos triunfais, associados aos antigos jogos olímpicos, que tinham um papel cívico, religioso e moral. A seguinte ode de Píndaro foi composta por ocasião de um dos Jogos Ístmicos.

A MELISSO, TEBANO
Vencedor da corrida de cavalos

Se alguma vez houve um mortal digno de ouvir a celebração de seu nome por seus concidadãos, foi esse que, coberto pelos dons da fortuna e da vitória, soube preservar seu coração do orgulho, filho insolente da Saciedade. Ó Júpiter! é de ti que os homens recebem as grandes virtudes: mas a prosperidade, cujos fundamentos se apoiam sobre uma sábia providência, só pode crescer e perdurar, enquanto aquela que decorre da perversidade do coração tem apenas a radiância de uma flor passageira.

Quanto ao atleta corajoso, nossos hinos são a mais digna recompensa de suas belas ações, e o poeta, ajudado pelas Graças, se deleita por imortalizá-lo em seus cantos. Assim, duas vitórias que a fortuna concedeu a Melisso1 levaram à plenitude sua alegria: vencedor na corrida de cavalos, ele acaba de ser coroado nos vales do Istmo2, e há pouco ouviu proclamar o nome de Tebas, sua pátria, não longe da sombria floresta onde habitava no passado o leão tão temível.

Não, Melisso não degenerou da virtude de seus ancestrais. Vós todos sabeis, Tebanos, quanta glória adquiriu no passado seu ancestral Cleônimo na corrida de carros; a que nível de honra e de prosperidade chegaram por seus trabalhos e suas vitórias os Labdacidas3, seus antepassados maternos! Mas o Tempo que, em seu curso, arrasta os dias, traz estranhas mudanças: ele eleva um, abaixa outro; só os filhos dos deuses estão ao abrigo de seus golpes.


1 Istmo de Corinto, que ligava a Grécia continental e o Peloponeso.

2 Melisso descendia de Édipo por parte de sua mãe.

3 Os Labdácidas descendiam de Lábdaco, pai de Laio, por sua vez pai de Édipo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A ROSA É A HONRA E O ENCANTO DAS FLORES — Anacreonte

FORMAS POÉTICAS 26 — ODE [1]
Dada a complexidade dessa forma, que mudou muito ao longo dos séculos, vou começar pela ode anacreôntica, também chamada ode amorosa ou pastoril. Seus temas são espirituosos e o tratamento é ligeiro, mesmo quando a presença da morte se faz sentir. O exemplo vem do próprio Anacreonte, traduzido (de passagem) da versão francesa de Leconte de Lisle.

ODE 5
Sobre a rosa

Mesclemos a Dioniso a rosa de Eros, e, a cabeça cingida de belas folhas de rosas, bebamos, rindo docemente.
A rosa é a honra e o encanto das flores; a rosa é o desejo e o desvelo da primavera; a rosa é a volúpia dos deuses!
O filho de Vênus se coroa de corolas de rosas, quando ele se mistura com o coro das Graças.
Coroai-me então, ó Dioniso, a fim de que, os cabelos ornados de rosas, eu cante nos templos, e que eu dirija as danças, acompanhado por uma bela jovem!

Na mesma temática, há o poema de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa:

Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade,
De rosas —
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.

E, para encerrar com brilho, a 1ª Ode Anacreôntica do extraordinário brasileiro e poeta, Natividade Saldanha, O Galo de Campina.

Campino galo
De garbo cheio,
No prado voa
De amar contente;
orna-lhe a frente
Vermelha c'roa.

Ave tão bela
Não viu ninguém.

Colar purpúreo
Lhe adorna o peito;
Quando ele entoa
Doces amores
Por entre as flores
A voz ressoa.

Ave tão bela
Não viu ninguém.