Eu sou por Natureza feito para meu próprio bem; não para meu próprio mal.

Dos Ensinamentos Áureos de Epicteto.


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

NESTE DIA FATAL, INFAUSTO DIA — Lereno Selinuntino

Neste Dia fatal, infausto Dia,
Nasceu ao Mundo mais um desgraçado;
E bem que pelas Musas embalado,
Só para Melpoméne é que nascia.

Quando a funesta aurora ressurgia,
O lúcido caminho achou turbado,
Negro vapor da terra aos Céus alçado,
Veio empecer-lhe a alegre louçania;

Três vezes troa o Céu, e do Cocito
Soltou a Inveja as viperinas tranças,
Soou da parte esquerda um rouco grito:

Ah! nasceste infeliz, e em vão te cansas;
Lereno, já teu fado estava escrito,
Serão teu maior bem vãs esperanças.

Melpômene era a musa da tragédia. O poeta mudou o acento por razões de métrica.
louçania = elegância
Cocito é um dos rios do inferno mitológico (Hades).

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

CARTA DE LIBÂNIO A ARISTONETO — Francisco Rodrigues Lobo

As cartas jocosas, ou de galantaria, têm mais campo, e liberdade para se poderem usar nelas alguns termos fora das limitações das nossas regras; porque assim em se entenderem mais, como em se sujeitarem menos, ficam desobrigados das primeiras leis, que são brevidade sem enfeite, clareza sem rodeios, propriedade sem metáforas; pois o termo da graça e galantaria, nisso se diferencia do sisudo e pontual; não negando que há algumas que não perdem a graça nem o siso, como é uma que Libânio escreveu a Aristoneto, que dizia:

"Onde vos achais, sei que dizeis sempre mal de mim; eu pelo contrário não perco ocasião de dizer louvores vossos; porém quem a ambos nos conhecer, a nenhum de nós há de dar crédito."
 
Francisco Rodrigues Lobo, Corte na Aldeia e Noites de Inverno, Diálogo III.
 
Libânio foi um filósofo sofista grego e professor de retórica.
Aristoneto de Nicéia foi um dos principais escritores gregos de epístolas.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

SONETO 12 — António Ferreira

Quando entoar começo com voz branda
Vosso nome d'amor, doce, e suave,
A terra, o mar, vento, água, flor, folha, ave
Ao brando som s'alegra, move, e abranda.

Nem nuvem cobre o Céu, nem na gente anda
Trabalhoso cuidado, ou peso grave,
Nova cor toma o Sol, ou se erga, ou lave
No claro Tejo, e nova luz nos manda.

Tudo se ri, se alegra, e reverdece.
Todo Mundo parece que renova,
Nem há triste planeta, ou dura sorte.

A minh'alma só chora, e se entristece.
Maravilha d'Amor cruel, e nova!
O que a todos traz vida, a mim traz morte.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

SONETO A ORFEU I, 3 - Rainer Maria Rilke

Um Deus pode fazer isto. Mas, dize-me, como
há de segui-lo um homem com sua lira?
A mente está em desacordo. Onde corações se cruzam, 
não haverá nenhum templo a Apolo.

A vera canção, como ensinas, não é desejo,
nem esforço por uma coisa obtida no fim.
A canção é Ser. Para o Deus, fácil.
Mas, quando somos nós? E quando Ele mudará,

então, em nosso ser toda a Terra e as Estrelas?
Não é bastante, jovem, amar, ainda quando
lute a voz contra tua boca – aprende

a esquecer que cantaste. O grito passa.
Na verdade, cantar é um sopro diverso:
um sopro do vazio. Uma rajada no Deus. Um vento.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

CASA SEM DONO — Sanetomo Minamoto

Embora minha casa pareça sem dono,
Quando eu tiver ido embora,
Oh! árvore de ameixa, que cresce pelos beirais,
Não te esqueças de mostrar
Teus brotos na primavera, te peço.

Este poema foi escrito na manhã do dia em que Sanetomo Minamoto foi assassinado.

domingo, 2 de novembro de 2014

OS ROSTOS IMÓVEIS — Carlos Drummond de Andrade

A Otto Maria Carpeaux

Pai morto, namorada morta.
Tia morta, irmão nascido morto.
Primos mortos, amigo morto.
Avô morto, mãe morta
(mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos).
Conhecidos mortos, professora morta.

Inimigo morto.

Noiva morta, amigas mortas.
Chefe de trem morto, passageiro morto.
Irreconhecível corpo morto: será homem? bicho?
Cão morto, passarinho morto.
Roseira morta, laranjeiras mortas.
Ar morto, enseada morta.
Esperança, paciência, olhos, sono, mover de mão: mortos.
Homem morto. Luzes acesas.
Trabalha à noite, como se fora vivo.

Bom dia! Está mais forte (como se fora vivo).

Morto sem notícia, morto secreto.
Sabe imitar fome, e como finge amor.

E como insiste em andar, e como anda bem.
Podia cortar casas, entra pela porta.

Sua mão pálida diz adeus à Rússia.
O tempo nele entra e sai sem conta.
Os mortos passam rápidos, já não há pegá-los.
Mal um se despede, outro te cutuca.
Acordei e vi a cidade:
eram mortos mecânicos,
eram casas de mortos,
ondas desfalecidas,
peito exausto cheirando a lírios,
pés amarrados.
Dormi e fui à cidade:
toda se queimava,
estalar de bambus,
boca seca, logo crispada.
Sonhei e volto à cidade.
Mas já não era a cidade.
Estavam todos mortos, o corregedor-geral verificava etiquetas nos cadáveres.
O próprio corregedor morrera há anos, mas sua mão continuava implacável.
O mau cheiro zumbia em tudo.

Desta varanda sem parapeito contemplo os dois crepúsculos.
Contemplo minha vida fugindo a passo de lobo, quero detê-la, serei mordido?
Olho meus pés, como cresceram, moscas entre eles circulam.
Olho tudo e faço a conta, nada sobrou, estou pobre, pobre, pobre,
mas não posso entrar na roda,
não posso ficar sozinho,
a todos beijarei na testa,
flores úmidas esparzirei,
depois. . . não há depois nem antes.
Frio há por todos os lados,
e um frio central, mais branco ainda.

Mais frio ainda. ..
Uma brancura que paga bem nossas antigas cóleras e amargos.. .
Sentir-me tão claro entre vós, beijar-vos e nenhuma poeira em boca ou rosto.
Paz de finas árvores,
de montes fragílimos lá em baixo, de ribeiras tímidas, de gestos que já não podem mais irritar,
doce paz sem olhos, no escuro, no ar.
Doce paz em mim,
em minha família que veio de brumas sem corte de sol
e por estradas subterrâneas regressa às suas ilhas,
na minha rua, no meu tempo — afinal — conciliado,
na minha cidade natal, no meu quarto alugado,
na minha vida, na vida de todos, na suave e profunda morte de mim e de todos.

sábado, 1 de novembro de 2014

ADEUS AO MUNDO — Laurindo Rabello

I
Já do batel da vida
Sinto tomar-me o leme a mão da morte:
E perto avisto o porto
Imenso nebuloso, e sempre noite,
Chamado — Eternidade!
Como é tão belo o sol! Quantas grinaldas
Não tem de mais a aurora!!
Como requinta o brilho a luz dos astros!
Como são recendentes os aromas
Que se exalam das flores! Que harmonia
Não se desfruta no cantar das aves,
No embater do mar, e das cascatas,
No sussurrar dos límpidos ribeiros,
Na natureza inteira, quando os olhos
Do moribundo, quase extintos, bebem
Seus últimos encantos!

II
Quando eu guardava, ao menos na esperança,
Para o dia seguinte o sol de um dia,
De uma noite o luar para outras noites;
Quando durar contava mais que um prado,
Mais que o mar, que a cascata erguer meu canto,
E murmurá-lo num jardim de amores;
Quando julgava a natureza minha,
Desdenhava os seus dons: ei-la vingada:
Cedo de vermes rojarei ludibrio,
E vida alardearão fracos arbustos
Sobre meu lar de morto! A noite, o dia,
O inverno, o verão, a primavera,
A aurora, a tarde, as nuvens, e as estrelas,
A rir-se passarão sobre meus ossos!
Não importa: não é perder o mundo
O que me azeda os pálidos instantes
Que conto por gemidos. Meu tormento,
Minha dor, é morrer longe da pátria,
Da mãe, e dos irmãos que tanto adoro.

III
Quando da pátria me ausentei, não tinha
Nada, que lhes deixar, que lhes dissesse
O que eram eles dentro de minh’alma.
Mendigo, a quem cedi pequena esmola,
Deu-me quatro sementes de saudades;
Ao meu jardim doméstico levei-as,
Cavei, reguei a terra com meu pranto,
E plantei as saudades. Soluçando
Chamei ali os meus: “Aqui vos deixo
(Disse apontando à plantação) “em flores
“Minh’alma toda inteira; aqui vos deixo
“Um tesouro enterrado. Joias, oiro,
“Riquezas, não, não tem, porém na terra
Estéril não será.” Ondas de pranto
Afogaram-me a voz: houve silêncio;
Palpei de novo o chão; vi que de novo
Cavado estava! A terra se afundara,
E as sementes nadavam sobre lágrimas,
Que minha mãe e minha irmã choravam...
Replantei-as, orei, beijei a terra,
E parti... Trouxe d’alma só metade;
E o coração?... deixei-o num abraço.

IV
Certo estou de que a planta, já crescida,
Terá brotado flor. Se ao menos dado
Me fosse colher uma... ver a terra
Pelo pranto dos meus santificada!
Se uma dessas saudades enfeitar-me
Viesse a minha essa, ou meu sudário,
Ou, pela mão materna transplantada,
Encravar-me as raízes no sepulcro...
É tão pouco, meu Deus!!... Eu não vos peço
Soberbo mausoléu, estátua augusta
De túmulo de rei. Assaz desprezo
Esses gigantes de oiro
Com entranhas de pó. Mortalha escassa
De grosseiro burel, que bordem lágrimas;
Terra só quanto baste p’ra um cadáver,
E as minhas saudades, e entre elas
Uma cruz com os braços bem abertos,
Que peça a todos preces. Terra, terra
Perto dos meus e no torrão da pátria,
É só quanto suplico.

V
A morte é dura,
Porém longe da pátria é dupla a morte.
Desgraçado do mísero, que expira
Longe dos seus, que molha a língua, seca
Pelo fogo da febre, em caldo estranho;
Que vigílias de amor não tem consigo,
Nem palavras amigas que lhe adocem
O tédio dos remédios, nem um seio,
Um seio palpitante de cuidados
Onde descanse a lânguida cabeça!

Feliz, feliz aquele, a quem não cercam
Nesse momento acerbo indiferentes
Olhos sem pranto; que na mão gelada
Sente a macia destra d’amizade
Num aperto de dor prender-lhe a vida!

Feliz o que no arfar da ânsia extrema
De desvelada irmã piedoso lenço,
Úmido de saudades vem limpar-lhe
As frias bagas dos finais suores!

Feliz o que repete a extrema prece,
Ensinada por ela, e beijar pode
O lenho do Senhor nas mãos maternas!

Desgraçado de mim!... Talvez bem cedo
Longe de mãe, de irmãos, longe da pátria
Tenha de me finar... Ramo perdido
Do tronco que o gerou, e arremessado
Por mão de Gênio mau à plaga alheia,
Mirrarei esquecido! Os céus o querem,
Os Céus são imutáveis: aos decretos
Do Senhor curvarei a fronte humilde,
Como cristão que sou. Eternidade,
Recebe-me a teu bordo!... Adeus, ó mundo!

VI
Já sinto da geada dos sepulcros
O pavoroso frio enregelar-me...
A campa vejo aberta, e lá do fundo
Um esqueleto em pé vejo a acenar-me...
Entremos. Deve haver nestes lugares
Mudança grave na mundana sorte;
Quem sempre a morte achou no lar da vida
Deve a vida encontrar no lar da morte.

Vamos. Adeus, ó mãe, irmãos, e amigos!
Adeus, terra, adeus, mares, adeus, céus!...
Adeus, que vou viagem de finados...
Adeus... adeus... adeus!

Adeus, ó sol que, amigo iluminaste
Meu pobre berço com os raios teus...
Ilumina-me agora a sepultura: —
Adeus, meu sol, adeus!
Florezinhas, que quando era menino
Tanto servistes aos brinquedos meus,
Vegetai, vegetai-me sobre a campa: —
Adeus, flores, adeus!

Vós, cujo canto tanto me encantava,
Da madrugada alígeros orfeus,
Uma nênia cantai-me ao pôr da tarde:
Passarinhos, adeus!

Vamos. Adeus ó mãe, irmãos, e amigos!
Adeus, terra, adeus, mares, adeus, céus!...
Adeus: que vou viagem de finados!...
Adeus!... adeus!... adeus!