Eu sou por Natureza feito para meu próprio bem; não para meu próprio mal.

Dos Ensinamentos Áureos de Epicteto.


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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

OPINIÃO SOBRE O BEM E O MAL — Montaigne

Homens (diz um antigo provérbio grego) são atormentados pelas opiniões que têm das coisas e não pelas coisas em si. Seria uma grande vitória obtida para o alívio de nossa miserável condição humana, se esta proposição pudesse ser estabelecida como totalmente verdadeira. Pois se os males têm entrada em nós apenas pelo julgamento que nós mesmos fazemos deles, parece que está, então, em nosso próprio poder os menosprezar ou os transformar em bem. Se essas coisas dependem de nós, por que nós não as transformamos e as adaptamos para nosso proveito? Se o que chamamos mal e tormento não é nem mau nem tormento por si mesmo, mas só nossa fantasia é que lhes atribui tal qualidade, podemos mudar isto. E se isto só depende de nossa própria escolha, se não há nada nos coagindo, seríamos certamente muito tolos, em fortificar aquilo que nos é muito prejudicial, atribuindo à doença, à privação, e ao desprezo um gosto amargo e repugnante, se está em nosso poder lhes dar um alívio prazeroso. E se o destino apenas fornece o assunto, a nós é que cabe lhe darmos forma.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

MOTSÉ - CONTRA A GUERRA DE AGRESSÃO

Se alguém invade um jardim particular e furta pêssegos e ameixas, e é descoberto, todos o condenarão como errado. Se for apanhado pelas autoridades, será punido. Por quê? Porque causou dano a outros.
Se alguém rouba a seu vizinho galinhas, porcos e cães, isso é considerado crime mais sério. Por quê? Porque o dano causado a outros é maior. Se o crime cometido é maior, o homem que o faz é considerado pior, e maior é a punição.
Ora, se alguém entra no estábulo de outro e lhe furta os cavalos ou o gado, é ele considerado ainda pior do que o ladrão de galinhas, porcos e cães. Por quê? Porque o mal praticado é maior, ele causa mais danos aos outros e seu crime é maior ainda.
Indo além, se alguém mata um inocente e lhe tira as roupas, a lança e a espada, o mal praticado é ainda maior que o de roubar cavalos e gado. Por quê? Porque quanto mais dano alguém causa aos outros, pior é ele considerado, e maior é o crime.
Todas as pessoas educadas condenam tais ações e as classificam como erradas. Mas as mesmas pessoas não verificam que uma guerra de agressão contra outro país é errada e, em vez disso, louvam-na e lhe dão apoio. Consideram que é certo fazer assim. Poder-se-á dizer que tais pessoas conhecem a diferença entre o certo e o errado?
Considera-se errado matar uma pessoa e o crime é punido por uma morte. Seguindo esse raciocínio, o crime de cometer dez mortes é dez vezes pior que o de matar uma pessoa e o crime do assassino é dez vezes maior. Matar cem pessoas seria cem vezes pior e o crime é multiplicado por cem.
Todas as pessoas educadas condenam tais assassínios e os classificam como errados. Mas as mesmas pessoas não têm consciência de que uma guerra de agressão contra outro país é errada e, em vez disso, louvam-na e lhe dão apoio. Consideram que é certo fazer assim. Não estão realmente conscientes de que isso é errado, pois escrevem a respeito de tais guerras de agressão em seus livros de história. Se soubessem que era errado, não o fariam.
Ora, se alguém condena um pequeno erro como "erro", mas não considera o grande erro da agressão contra um vizinho, e em vez disso lhe dá louvor e apoio, como se poderá dizer que tal pessoa conheça a diferença entre o certo e o errado?
Vemos, portanto, que as pessoas educadas deste mundo não conhecem a diferença entre o certo e o errado.

Motsé [c. 501-416 a.C.]