Eu sou por Natureza feito para meu próprio bem; não para meu próprio mal.

Dos Ensinamentos Áureos de Epicteto.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

COM TODOS OS SEUS OLHOS A DEUSA NOITE OLHA ADIANTE — Hino à Noite, do Rigveda

FORMAS POÉTICAS 20 — HINO
Hinos são cantos de louvor ou exaltação de uma religião, nação, partido político ou agremiação esportiva. Fazem parte do gênero lírico. Podem ser patrióticos, religiosos, profanos.
O Rigveda é o Livro dos Hinos da religião hindu. Os hinos foram compostos antes de 2000 AC. Dele vem o seguinte Hino à Noite.

HINO À NOITE
Com todos os seus olhos a deusa Noite olha adiante, se aproximando de muitas sombras: 
Ela vestiu todas as suas glórias.

Imortal, ela encheu o vazio, a deusa encheu altura e profundidade: 
Ela conquista a escuridão com sua luz. 

A deusa, enquanto vem, fixa no lugar a Alvorada, sua irmã,
E então a escuridão desaparece. 

Assim, favorece-nos esta noite, ó Tu, cujos caminhos nós habitamos,
Como pássaros habitam seu ninho na árvore.

Os aldeãos buscaram suas casas, e tudo aquilo que caminha e tudo aquilo que voa, 
Até mesmo os falcões vorazes de presa.

Afasta a loba e o lobo; ó Urmya*, mantém distante o ladrão: 
Fácil sejas tu para nós passarmos.

Claramente, ela veio perto de mim, ela que enfeita a escuridão com as cores mais ricas: 
Ó manhã, anula a treva como se anulam dívidas.

Estas palavras eu trouxe a ti como oferenda, ó Noite, filha do céu, 
Conquistadora, aceita este louvor.

* Nome da noite personificada.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

UMA FOLHA MORTA — Guilherme de Almeida

FORMAS POÉTICAS 19 - HAICAI
Espécie literária japonesa, adaptada por Guilherme de Almeida e Manuel Bandeira à poética em língua portuguesa. Pertence ao gênero lírico. Cada haicai é composto por uma estrofe de três versos, totalizando dezessete sílabas métricas, ou seja, um verso de cinco sílabas, um de sete e outro de cinco. Associa-se às estações do ano. O haicai seguinte foi escrito por Guilherme de Almeida.

Uma folha morta.
Um galho no céu, grisalho.
Fecho a minha porta.

Numa tradução livre, isto é, sem a preocupação de rima e métrica, segue um haicai de Kobayashi Issa.

ar fresco —
a meia-lua se move
através de uma poça

domingo, 7 de dezembro de 2014

A MAIS FORMOSA QUE DEUS — Gregório de Matos

FORMAS POÉTICAS 18 — GLOSA
Na glosa, o poeta recebe um tema, para desenvolvê-lo em versos. O motivo ou tema pode ser um simples verso ou uma estrofe. Nesta composição do gênero lírico, o final de cada estrofe é um dos versos do mote.
O mote seguinte foi glosado por Gregório de Matos.

MOTE

A mais formosa que Deus

GLOSA

Com duas donzelas vim,
Ontem, de uma romaria:
Uma, feia parecia;
Outra — era um serafim.
E, vendo-as eu assim,
Sós, sem os amantes seus,
Perguntei-lhes: — Anjos meus,
Que vos pôs em tal estado?
Disse a feia — que o pecado;
A mais formosa, — que Deus.

Agora vem uma glosa feita por Camões.

MOTE ALHEIO

Campos bem-aventurados,
Tornai-vos agora tristes;
Que os dias, em que me vistes,
Alegres já são passados.

GLOSA

Campos cheios de prazer,
Vós que estais reverdecendo,
Já me alegrei com vos ver;
Agora venho a temer
Que entristeçais em me vendo.
E pois a vista alegrais
Dos olhos desesperados,
Não quero que me vejais,
Para que sempre sejais,
Campos, bem-aventurados.

Porém se por acidente
Vos pesar de meu tormento,
Sabereis que Amor consente
Que tudo me descontente,
Senão descontentamento.
Por isso vós, arvoredos,
Que já nos meus olhos vistes
Mais alegria, que medos,
Se mos quereis fazer ledos,
Tornai-vos agora tristes.

Já me vistes ledo ser,
Mas depois que o falso Amor
Tão triste me fez viver,
Ledos folgo de vos ver,
Porque me dobreis a dor.
E se este gosto sobejo
De minha dor me sentistes,
Julgai quanto mais desejo
As horas que vos não vejo,
Que os dias em que me vistes.

O tempo, que é desigual,
De secos, verdes vos tem;
Porque em vosso natural
Se muda o mal para o bem,
Mas o meu para mor mal.
Se perguntais, verdes prados,
Pelos tempos diferentes
Que de Amor me foram dados,
Tristes, aqui são presentes,
Alegres, já são passados.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

AMADA FILHA, É JÁ CHEGADO O DIA — Alvarenga Peixoto

FORMAS POÉTICAS 17 — GENETLÍACO
O poema genetlíaco celebra o nascimento e os aniversários. O seguinte soneto genetlíaco foi escrito para sua filha, pelo desventurado poeta e conjurado Inácio José de Alvarenga Peixoto.

A MARIA EFIGÊNIA, EM 1786, QUANDO COMPLETAVA SETE ANOS DE IDADE

Amada filha, é já chegado o dia,
Em que a luz da razão, qual tocha acesa,
Vem conduzir a simples natureza,
É hoje que o teu mundo principia.

A mão, que te gerou, teus passos guia,
Despreza ofertas de uma vã beleza,
E sacrifica as honras e a riqueza
Às santas leis do Filho de Maria.

Estampa na tu'alma a caridade,
Que amar a Deus, amar aos semelhantes,
São eternos preceitos da verdade.

Tudo o mais são ideias delirantes;
Procura ser feliz na eternidade,
Que o mundo são brevíssimos instantes.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O FOGO DO CORAÇÃO ACENDEU NO PEITO — Hafiz

FORMAS POÉTICAS 16 — GAZAL
O gazal, poema de origem árabe, é um gênero lírico, que consiste num mínimo de cinco dísticos e num máximo de quinze, com o segundo verso ou sua rima servindo de estribilho.
Hafiz foi um poeta persa, que levou à perfeição a forma do gazal. Seus quinhentos poemas foram reunidos num livro chamado O Divã. O gazal seguinte se chama Um Fogo e é dele.

O Fogo do coração acendeu no peito e queimou dolente pelo Amado.
Um fogo havia na casa que a morada queimou.
   
A distância do Amado fez arder meu corpo.
Separado de sua face, um fogo minha alma queimou.
   
Como a tigela, arrependido quebrou meu coração.
Sem vinho nem taça, tal uma tulipa, meu coração se queimou.
   
Vê queimar meu coração, vê o fogo das lágrimas.
O coração da vela, como mariposa, ontem à noite, de compaixão se queimou.   
   
Termina a discussão e volta, que minha pupila,   
removendo seu manto, dando graças o queimou.
   
Quem viu a cadeia unida de tuas madeixas encaracoladas
se inflamou e, para minha loucura, seu coração se queimou.
   
Não é raro que de mim se compadeça o conhecido:   
quando saí de mim mesmo, o coração do estranho se queimou.
   
A água da taverna levou minha medalha de abstinência,
o fogo da taverna minha casa da inteligência queimou.
   
Bebe vinho, Hafiz, e esquece logo da lenda,   
que à noite não dormimos e, por amor da fantasia, a vela se queimou.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

NINFAS DESTA ASPEREZA AOS CÉUS VIZINHA — José Basílio da Gama

FORMAS POÉTICAS 15 — EPITALÂMIO
O epitalâmio celebra o matrimônio. Pertence ao gênero lírico. Seguem as seis primeiras estrofes do Epitalâmio da Excelentíssima Senhora D. Maria Amália, que Basílio da Gama escreveu em oitava rima, para o casamento da filha do marquês de Pombal.

1
Ninfas desta aspereza aos Céus vizinha,
Cingi-me a fronte do arrojado loiro:
Torne a correr a mão cansada minha
C'o plectro de marfim as cordas de oiro.
Oiça dos sete montes a Rainha,
Oiça o Danúbio, e o pátrio Tejo, e o Doiro.
Amor na minha cítara se esconda,
E Amália, Amália o Eco me responda.

2
Vejo os Cisnes das penas prateadas
Trazer do Céu sobre o fecundo leito
Fitas de rosas no pescoço atadas,
Estrelas de oiro no encrespado peito.
Já dão caminho as nuvens envoladas,
Já sente a terra o amoroso efeito.
Deixa rasto de luzes no ar que trilha
A bela Deusa das escumas filha.

3
Vem, ó santo Himeneu, desce dos ares,
Coroado de lírios e de rosas,
Rodeiem teus puríssimos altares
Do Tejo as mansas águas vagarosas.
Destes bosques as Deusas tutelares,
Ornando as tranças negras e formosas,
Irão co'as nuas Graças, e os Amores,
Pelo chão espalhando as brancas flores.

4
Esposo afortunado, em quem tem posto
A pátria as suas doces esperanças,
No meio dos aplausos e do gosto,
Ah! conhece o que logras, e o que alcanças.
A Fortuna, que a tantos volta o rosto,
Te põem na mão as fugitivas tranças.
Prêmio do teu ardor, a Deusa cega
Quanto te pode dar tudo te entrega.

5
Estas faces mimosas e serenas,
A boca onde se forma o doce encanto,
Causa de tanto susto e tantas penas,
Os olhos, que enche o vergonhoso pranto,
A garganta de neve e de açucenas,
Tão desejada, e suspirada tanto,
(Olha os sinais da doce mágoa sua)
Alma feliz, esta beleza é tua.

6
Entra, Esposa imortal, de Amor no Templo,
Dá à Pátria, que te ama, e se desvela,
Doces frutos de amor (eu os contemplo),
Sucessão numerosa, ilustre, e bela:
Que siga os passos, e o paterno exemplo,
E se deixe guiar da sua estrela.
Que de fortes leões leões se geram,
Nem os filhos das águias degeneram.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

NO TÚMULO D'UM MENINO — Casimiro de Abreu

FORMAS POÉTICAS 14 — ELEGIA
Elegia ou Treno é uma composição de tristeza e de luto. Pertence ao gênero lírico. Tem como variante a Nênia ou Epicédio, em que se lamenta a morte de alguém. A mais famosa nênia da literatura brasileira é o Cântico do Calvário, escrita por Fagundes Varela por ocasião da morte de seu filho. É uma obra prima, mas tão triste, que não vou reproduzi-la aqui.
Outra variante da elegia é a Endecha ou Romancilho. Nesse tipo de composições se exprime melancolia e desenganos, em versos heptassílabos. Eis algumas endechas de Camões:
ENDECHAS A BÁRBARA ESCRAVA

Aquela cativa,
Que me tem cativo,
Porque nela vivo,
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas,
Me parecem belas,
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Para ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião,
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha,
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena,
Que a tormenta amansa:
Nela enfim descansa
Toda minha pena.
Esta é a cativa,
Que me tem cativo;
E pois nela vivo,
É força que viva.

A última variante da elegia é o Epitáfio, versos para serem inscritos no túmulo. Segue um exemplo de Casimiro de Abreu.

NO TÚMULO D'UM MENINO

Um anjo dorme aqui: na aurora apenas,
Disse adeus ao brilhar das açucenas
Sem ter da vida alevantado o véu.
— Rosa tocada do cruel granizo —
Cedo finou-se e no infantil sorriso
Passou do berço p'ra brincar no céu!